Poesias
Ceclia Meireles

Cano
Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
- depois, abri o mar com as mos, 
para o meu sonho naufragar.

Minhas mos ainda esto molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da gua vai morrendo 
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso, 
para fazer com que o mar cresa, 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desaparea.
Depois, tudo estar perfeito; 
praia lisa, guas ordenadas, 
meus olhos secos como pedras 
e as minhas duas mos quebradas.

 ##################
###################
 
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida est completa.
No sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.
Irmo das coisas fugidias
No sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneo ou me desfao,
- no sei, no sei. No sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a cano  tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

  
################
##################

CanoI
Nunca eu tivera querido
dizer palavra to louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.
O sentido est guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ningum viu ningum
que o amor pusesse to triste.
Essa tristeza no viste,
e eu sei que ela se v bem...
S que aquele mesmo vento
fechou teus olhos, tambm...


##################
################

Destino
Pastora de nuvens, fui posta a servio
por uma campina desamparada
que no principia nem tambm termina,
e onde nunca  noite e nunca madrugada.
(Pastores da terra, vs tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direo.
Sabeis quando  tarde, sabeis quando  cedo.
Eu, no.)
Pastora de nuvens, por muito que espere,
no h quem me explique meu vrio rebanho.
Perdida atrs dele na plancie area,
no sei se o conduzo, no sei se o acompanho.
(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condio.
Pensais que h firmezas, pensais que h limites.
Eu, no.)
Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instveis das reses dispersas.
(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como  to serena a vossa ocupao!
Tendes sempre o incio da sombra que foge...
Eu, no.)
Pastora de nuvens, no paro nem durmo
neste mvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.
(Pastores da terra, debaixo de folhas
que entornam frescura num plcido cho,
Sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, no.)
Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E s vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, no sei por que lado.
(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginao,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, no.)
Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrs de formas com feitios falsos,
queimando viglias na plancie eterna
que gira debaixo dos meus ps descalos.
(Pastores da terra, tereis um salrio,
e andar por bailes vosso corao.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, no.)


##############
############


A Doce Cano
A Christina Christie
Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra to doce,
de maneira to serena,
que at Deus pensou que fosse
felicidade - e no pena.
Anjos de lira dourada
debruaram-se da altura.
No houve, no cho, criatura
de que eu no fosse invejada,
pela minha voz to pura.
Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-ris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.
O mistrio do meu canto,
Deus no soube, tu no viste.
Prodgio imenso do pranto:
- todos perdidos de encanto, 
s eu morrendo de triste!
Por assim to docemente
meu mal transformar em verso,
oxal Deus no o ausente,
para trazer o Universo
de plo a plo contente!


#############
############  
  
  
Descrio
Amanheceu pela terra
um vento de estranha sombra,
que a tudo declarou guerra.
Paredes ficaram tortas, 
animais enlouqueceram 
e as plantas caram mortas. 
O plido mar to branco 
levantava e desfazia 
um verde-lvido flanco. 
E pelo cu, tresmalhadas, 
iam nuvens sem destino, 
em fantsticas brigadas. 
Dos linhos claros da areia 
fez o vento retorcidas, 
rotas, miserveis teias. 
Que sopro de ondas estranhas! 
Que sopro nos cemitrios! 
pelos campos e montanhas! 
Que sopro forte e profundo! 
Que sopro de acabamento! 
Que sopro de fim de mundo! 
Da varanda do colgio, 
do ptio do sanatrio, 
miravam tal sortilgio 
olhos quietos de meninos, 
com esperanas humanas 
e com terrores divinos. 
A tardinha serenada 
foi dormindo, foi dormindo, 
despedaada e calada. 
S numa ruiva amendoeira 
uma cigarra de bronze, 
por brio de cantadeira
girava em esquecimento 
 sanha enorme do vento, 
forjando o seu movimento 
num grave cntico lento... 


#############
############


Retrato Falante
No h quem no se espante, quando
mostro o retrato desta sala,
que o dia inteiro est mirando,
e  meia-noite em ponto fala.
Cada um tem sua raridade:
selo, flor, dente de elefante.
Uns tm at felicidade!
Eu tenho o retrato falante.
Minha vida foi sempre cheia
de visitas inesperadas,
a quem eu me conservo alheia,
mas com as horas desperdiadas.
Chegam, descrevem aventuras,
sonhos, mgoas, absurdas cenas.
Coisas de hoje, antigas, futuras...
(A maioria mente, apenas.)
E eu, fatigada e distrada,
digo sim, digo no - diversas
respostas de gente perdida
no labirinto das conversas.
Ouo, esqueo, livro-me - trato
de recompor o meu deserto.
Mas,  meia-noite, o retrato
tem um discurso pronto e certo.
Vejo ento por que estranho mundo
andei, ferida e indiferente,
pois tudo fica no sem-fundo
dos seus olhos de eternamente.
Repete palavras esquivas
sublinha, pergunta, responde,
e apresenta, claras e vivas,
as intenes que o mundo esconde.
Na outra noite me disse: "A morte
leva a gente. Mas os retratos
so de natureza mais forte,
alm de serem mais exatos.
Quem tiver tentado destru-los,
por mais que os reduza a pedaos,
encontra os seus olhos tranqilos
mesmo rotos, sobre os seus passos.
Depois que estejas morta, um dia,
tu, que s s desprezo e ternura,
sabers que ainda te vigia
meu olhar, nesta sala escura.
Em cada meia-noite em ponto,
direi o que viste e o que ouviste.
Que eu - mais que tu - conheo e aponto
quem e o que te deixou to triste."


#################
#############  
  


Leveza
Leve  o pssaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata area
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rpido
desse mais antigo isntante,
mais leve.
E a fuga invisvel
do amargo passante,
mais leve.
  *****************

 	 	 	 	 	 	
	OU ISTO OU AQUILO  
Ou se tem chuva e no se tem sol, 
 ou se tem sol e no se tem chuva!
  Ou se cala a luva e no se pe o anel,
  ou se pe o anel e no se cala a luva! 
 Quem sobe nos ares no fica no cho ,
  Quem fica no cho no sobe nos ares. 
  uma grande pena que no se possa  
estar ao mesmo tempo em dois lugares! 
 Ou guardo dinheiro e no compro o doce, 
 ou compro o doce e no guardo o dinheiro.  
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... 
 e vivo escolhendo o dia inteiro! 
 No sei se brinco, no sei se estudo,
  se saio correndo ou fico tranqilo. 
 Mas no consegui entender ainda  
qual  melhor: se  isto ou aquilo. 					

###########
############


						
	
 	 	 	 	 	 	
	Guerra  
Tanto  o sangue  
que os rios desistem de seu ritmo,
  e o oceano delira
  e rejeita as espumas vermelhas. 
 Tanto  o sangue  
que at a lua se levanta horrvel,
  e erra nos lugares serenos, 
 sonmbula de aurolas rubras,
  com o fogo do inferno em suas madeixas. 
 Tanta  a morte 
 que nem os rostos se conhecem,
 lado a lado, 
 e os pedaos de corpo esto por ali como tbuas sem uso.
  Oh, os dedos com alianas perdidos na lama...
  Os olhos que j no pestanejam com a poeira... 
 As bocas de recados perdidos... 
 O corao dado aos vermes,
 dentro dos densos uniformes... 
 Tanta  a morte  que s as almas formariam colunas, 
 as almas desprendidas...
 - e alcanariam as estrelas. 
 E as mquinas de entranhas abertas, 
 e os cadveres ainda armados, 
 e a terra com suas flores ardendo, 
 e os rios espavoridos como tigres, 
com suas mculas, 
 e este mar desvairado de incndios e nufragos, 
 e a lua alucinada de seu testemunho, 
 e ns e vs, imunes,  chorando, apenas, sobre fotografias,  
- tudo  um natural armar 
e desarmar de andaimes  entre tempos vagarosos,
  sonhando arquiteturas. 					
						


###########
###############
				
	CanoII

No desequilbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
 que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os sculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre guas e areias,
cegaram como os das esttuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrana do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e s talvez ele ainda viva
dentro destas guas sem fim.
###########
###############


		Depois do Sol...
Fez-se noite com tal mistrio,
To sem rumor, to devagar,
Que o crepsculo  como um luar
Iluminando um cemitrio ...

Tudo imvel ... Serenidades ...
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!

Oh! Paisagens minhas de antanho ...
Velhas, velhas ... Nem vivem mais ...
As nuvens passam desiguais,
Com sonolncia de rebanho ...

Seres e coisas vo-se embora ...
E, na aurola triste do luar,
Anda a lua, to devagar,
Que parece Nossa Senhora
Pelos silncios a sonhar ...
			
############
###############

Serenata
Permita que eu feche os meus olhos,
pois  muito longe e to tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudea:
que me conforme em ser sozinha.
H uma doce luz no silencio,
e a dor  de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um cu maior que este mundo,
e aprenda a ser dcil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

############
##########


Noturno
Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as rvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforado e vencido,
na turbulncia das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada, 
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as plpebras da tmida esperana,
orvalhadas de trmulo sal?

O sangue e a lgrima so pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem to inutilmente pensante e pensado
s tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas midas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistrio humano:
grandes como prticos, suaves como veludo,
mas sem lembranas histricas, 
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e lmpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noes de gua e de primavera nas tranqilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabea,
e comeavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!

###########
################


Timidez
Basta-me um pequeno gesto, 
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas s esse eu no farei.

Uma palavra cada
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que no direi.

Para que tu me adivinhes, 
entre os ventos taciturnos, 
apago meus pensamentos, 
ponho vestidos noturnos, 

- que amargamente inventei.

E, enquanto no me descobres, 
os mundos vo navegando
nos ares certos do tempo, 
at no se sabe quando...

- e um dia me acabarei.


###########
########

Pssaro
Aquilo que ontem cantava
j no canta.
Morreu de uma flor na boca:
no do espinho na garganta.

Ele amava a gua sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

No foi desejo ou imprudncia:
no foi nada.
E o dia toca em silncio
a desventura causada.

Se acaso isso  desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa to bela,
por uma tnue ferida.


############
############


Reinveno
A vida s  possvel
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mo dourada
pelas guas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, 
a vida s  possvel
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braos.
Projeto-me por espaos
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

No te encontro, no te alcano...
S - no tempo equilibrada, 
desprendo-me do balano
que alm do tempo me leva.
S - na treva, 
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida, 
a vida s  possvel 
reinventada.


###########
##########


 preciso no esquecer nada
 preciso no esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a orao de cada instante. 

 preciso no esquecer de ver a nova borboleta 
nem o cu de sempre. 

O que  preciso  esquecer o nosso rosto, 
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que  preciso esquecer  o dia carregado de atos, 
a idia de recompensa e de glria.

O que  preciso  ser como se j no fssemos, 
vigiados pelos prprios olhos 
severos conosco, pois o resto no nos pertence. 


###############
###############


sis
E diz-me a desconhecida:
"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! ...

"Finaliza! Recomea!
"Transpe glrias e pecados! ..."
Eu no sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angstia e a certeza
De ter os dias contados ...

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera, 
Entre margens de tristeza,

Sem palcios de quimera,
Sem paisagens de ventura, 
Sem nada de primavera ...

L vou, pela noite escura, 
Pela noite de segredo, 
Como um rio de loucura ... 

Tudo em volta sente medo ... 
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo ...

L me vou, sem despedida ...
s vezes, quem vai, regressa ...
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa" ...


##############
##############


Mapa de Anatomia: O Olho
O Olho  uma espcio de globo,
 um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
 um globobrilhante:
parece cristal,
 como um aqurio com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaos,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrgios e peixes de ouro.

Mas por dentro h outras pinturas,
que no se vem:
umas so imagens do mundo,
outras so invetadas.

O Olho  um teatro por dentro.
E s vezes, sejam atores, sejam cenas,
e s vezes, sejam imagens, sejam ausncias,
formam, no Olho, lgrimas.


##############
###########

Para onde  que vo os versos
Para onde  que vo os versos 
que s vezes passam por mim 
como pssaros libertos? 

Deixo-os passar sem captura, 
vejo-os seguirem pelo ar 
- um outro ai, de outros jardins... 

Aonde iro? A que criaturas 
se destinam, que os alcanam 
para os possuir e amestrar? 

De onde vm? Quem os projeta 
como translcidas setas? 
E eu, por que os deixo passar, 

como alheias esperanas? 


###########
###########

Improviso do amor-perfeito
Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento: 
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados, 
e o padecimento aceito. 
E onde ests, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insnia, 
de um olhar de despedida 
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo 
sem o corao no peito.
E onde ests, Amor-Perfeito?

Longe, longe, 
atrs do oceano que nos meus se alteia 
entre plpebras de areia... 

Longe, longe... Deus te guarde 
sobre o seu lado direito, 
como eu te guardava do outro, 
noite e dia, Amor-Perfeito. 


###########
#############

Fantasma
Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mos imveis de cada lado?

Tua longa barca desliza
por no sei que onda, lmpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...

Passas por mim na rbita imensa
de uma secreta indiferena,
que qualquer pergunta dispensa.

Desapareces do lado oposto
e, ento, com sbito desgosto,
vejo que teu rosto  o meu rosto,

e que vais levando contigo,
pelo silncioso perigo
dessa tua navegao,

minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu corao!


###########
###############


Cantar
Cantar de beira de rio:
Agua que bate na pedra,
pedra que no d resposta.

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lbios negros
o sonho de que se gosta.

Pensando no caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas no vem

Passam luas - muito longe,
estrelas - muito impossveis,
nuvens sem nada, tambm.

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

A gua subiu pelo campo,
mas o campo era to triste...
Ai!
Cantar de beira de rio.

###########
############
Noite
To perto!
To longe!
Por onde
 o deserto?
s vezes,
responde,
de perto,
de longe.
Mas depois
se esconde.
Somos um
ou dois?
s vezes,
nenhum.
E em seguida,
tantos!
Avida
transborda
por todos
os cantos.
Acorda
com modos
de puro
esplendor.
Procuro
meu rumo:
horizonte
escuro:
um muro
em redor.
em treva
me sumo.
Para onde 
me leva?

Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lbio de Deus! - Sensitiva
tocada.

############
##############

Despedida
Por mim, e por vs, e por mais aquilo
que est onde as outras coisas nunca esto,
deixo o mar bravo e o cu tranquilo:
quero solido.

Meu caminho  sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntaro.
- Por no ter palavras, por no ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmo.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu corao.
No ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mo.

A memria voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginao...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memria, amor e o resto onde estaro?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desiluso!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

############
##############
Mar em redor
Meus ouvidos esto como as conchas sonoras:
msica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...

Esqueceste a sombra no vento.
Por isso, ficaste e partiste,
e h finos deltas de felicidade
abrindo os braos num oceano triste.

Soltei meus anis nos alns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.


#################
###############

Metamorfose 



Sbito pssaro
dentro dos muros
caido,


plido barco
na onda serena 
chegado.


Noite sem braos!
Clido sangue
corrido.


E imensamente
o navegante
mudado.


Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.


Seu labio leva
um outro nome
mandado.


sbito pssaro
por altas nuvens
bebido.


Plido barco
nas flores quietas
quebrado.


Nunca, jamais
e para sempre
perdido


o eco do corpo
no prprio vento
pregado.


################
#############
Cano de alta noite 



Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.


Andar, andar, que um poeta
no necessita de casa.


Acaba-se a ltima porta.
O resto  o cho do abandono.


Um poeta, na noite morta,
no necessita de sono.


Andar...Perder o seu passo
na noite, tambm perdida.


Um poeta,  merc do espao,
nem necessita de vida.


Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.


Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
No necessita de nada.


##########
###########
Dia de chuva





As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de cora e estrela.


Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aereos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.


Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armrios,
enfermidades, herosmos...


quem passa  como um funmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os ps por absmos...


Dia to sem claridade!
s se conhece que existes
pelo pulso dos relgios...


Se um morto agora chegasse
quela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e com limo pela face,
ali ficasse batendo


- ali ficasse batendo
quela porta esquecida
sua mo de eternidade...


To frentico anda o mar
que no se ouviria o morto
bater  porta e chamar...


E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto  surdez do dia.


Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois areos que trabalham
no arado do esquecimento.



#############
#############

Encomenda 


Desejo uma fotografia
como esta - o senhor v? - como esta:
em que para sempre me ria
com que vestido de eterna festa.


Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe essa ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.


No meta fundos de floresta
nem de arbitrria fantasia...
No... Neste espao que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

###########
##########



Balada das Dez Bailarinas do Cassino

						Dez bailarinas deslizam
						por um cho de espelho.
						Tm corpos egpcios com placas douradas,
						plpebras azuis e dedos vermelhos.
						Levantam vus brancos, de ingnuos aromas,
						e dobram amarelos joelhos.


						Andam as dez bailarinas
						sem voz, em redor das mesas.
						H mos sobre facas, dentes sobre flores
						e com os charutos toldam as luzes acesas.
						Entre a msica e a dana escorre
						uma sedosa escada de vileza.


						As dez bailarinas avanam
						como gafanhotos perdidos.
						Avanam, recuam, na sala compacta,
						empurrando olhares e arranhando o rudo.
						To nuas se sentem que j vo cobertas
						de imaginrios, chorosos vestidos.


						A dez bailarinas escondem
						nos clios verdes as pupilas.
						Em seus quadris fosforescentes,
						passa uma faixa de morte tranqila.
						Como quem leva para a terra um filho morto,
						levam seu prprio corpo, que baila e cintila.


						Os homens gordos olham com um tdio enorme
						as dez bailarinas to frias.
						Pobres serpentes sem luxria,
						que so crianas, durante o dia.
						Dez anjos anmicos, de axilas profundas,
						embalsamados de melancolia.


						Vo perpassando como dez mmias,
						as bailarinas fatigadas.
						Ramo de nardos inclinando flores
						azuis, brancas, verdes, douradas.
						Dez mes chorariam, se vissem
						as bailarins de mos dadas.



(in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)



* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *




Lamento do Oficial por seu Cavalo Morto


					Ns merecemos a morte,
					porque somos humanos
					e a guerra  feita pelas nossas mos,
					pelo nossa cabea embrulhada em sculos de sombra,
					por nosso sangue estranho e instvel, pelas ordens
					que trazemos por dentro, e ficam sem explicao.



					Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
					os clculos do gesto,
					embora sabendo que somos irmos.
					Temos at os tomos por cmplices, e que pecados
					de cincia, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
					Que delrio sem Deus, nossa imaginao!



					E aqui morreste! Oh, tua morte  a minha, que, enganada,
					recebes. No te queixas. No pensas. No sabes. Indigno,
					ver parar, pelo meu, teu inofensivo corao.
					Animal encantado - melhor que ns todos! 
					- que tinhas tu com este mundo
					dos homens?


					Aprendias a vida, plcida e pura, e entrelaada
					em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...

					Rei das plancies verdes, com rios trmulos de relinchos...

					Como vieste morrer por um que mata seus irmos!




(in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

***********************



Murmrio



					Traze-me um pouco das sombras serenas
					que as nuvens transportam por cima do dia!
					Um pouco de sombra, apenas,
					- v que nem te peo alegria.


					Traze-me um pouco da alvura dos luares
					que a noite sustenta no teu corao!
					A alvura, apenas, dos ares:
					- v que nem te peo iluso.


					Traze-me um pouco da tua lembrana,
					aroma perdido, saudade da flor!
					- V que nem te digo - esperana!
					- V que nem sequer sonho - amor!



*********************


4o. Motivo da Rosa



				No te aflijas com a ptala que voa:
				tambm  ser, deixar de ser assim.


				Rosas ver, s de cinzas franzida,
				mortas, intactas pelo teu jardim.


				Eu deixo aroma at nos meus espinhos
				ao longe, o vento vai falando de mim.


				E por perder-me  que vo me lembrando,
				por desfolhar-me  que no tenho fim.



*******************


Discurso


					E aqui estou, cantando.


					Um poeta  sempre irmo do vento e da gua:
					deixa seu ritmo por onde passa.


					Venho de longe e vou para longe:
					mas procurei pelo cho os sinais do meu caminho
					e no vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
					andaram.


					Tambm procurei no cu a indicao de uma trajetria, 
					mas houve sempre muitas nuvens.
					E suicidaram-se os operrios de Babel.


					Pois aqui estou, cantando.


					Se eu nem sei onde estou, 
					como posso esperar que algum ouvido me escute?


					Ah! Se eu nem sei quem sou, 
					como posso esperar que venha algum gostar de mim?



****************************


Retrato


					Eu no tinha este rosto de hoje, 
					assim calmo, assim triste, assim magro, 
					nem estes olhos to vazios, 
					nem o lbio amargo.


					Eu no tinha estas mos sem fora, 
					to paradas e frias e mortas;
					eu no tinha este corao
					que nem se mostra.


					Eu no dei por esta mudana, 
					to simples, to certa, to fcil:
					- Em que espelho ficou perdida
					a minha face?



***************

Gargalhada


					Homem vulgar! Homem de corao mesquinho!
					Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
					Dobra essa orelha grosseira, e escuta
					o ritmo e o som da minha gargalhada:


					Ah! Ah! Ah! Ah!
					Ah! Ah! Ah! Ah! 


					No vs?
					 preciso jogar por escadas de mrmores baixelas de ouro.
					Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais, 
					vergar a lmina das espadas e despedaar esttuas, 
					destruir as lmpadas, abater cpulas, 
					e atirar para longe os pandeiros e as liras...


					O riso magnfico  um trecho dessa msica desvairada.


					Mas  preciso ter baixelas de ouro, 
					compreendes?
					- e colares, e espelhos, e espadas e esttuas.
					E as lmpadas, Deus do cu!
					E os pandeiros geis e as liras sonoras e trmulas...


					Escuta bem:


					Ah! Ah! Ah! Ah!
					Ah! Ah! Ah! Ah! 


					S de trs lugares nasceu at hoje essa msica herica:
					do cu que venta, 
					do mar que dana, 
					e de mim.



*****************

Fio


					No fio da respirao, 
					rola a minha vida montona, 
					rola o peso do meu corao.


					Tu no vs o jogo perdendo-se
					como as palavras de uma cano.


					Passas longe, entre nuvens rpidas, 
					com tantas estrelas na mo...


					- Para que serve o fio trmulo
					em que rola o meu corao?

*****************

Atitude


					Minha esperana perdeu seu nome...
					Fechei meu sonho, para cham-la.
					A tristeza transfigurou-me
					como o luar que entra numa sala.


					O ltimo passo do destino
					parar sem forma funesta, 
					e a noite oscilar como um dourado sino
					derramando flores de festa.


					Meus olhos estaro sobre espelhos, pensando
					nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.


					E um campo de estrelas ir brotando
					atrs das lembranas ardentes.



***************


Noes


					Entre mim e mim, h vastides bastantes
					para a navegao dos meus desejos afligidos.


					Descem pela gua minhas naves revestidas de espelhos.
					Cada lmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
					a atinge.


					Mas, nesta aventura do sonho exposto  correnteza, 
					s recolho o gosto infinito das respostas que no se 
					encontram.


					Virei-me sobre a minha prpria existncia, e contemplei-a
					Minha virtude era esta errncia por mares contraditrios, 
					e este abandono para alm da felicidade e da beleza.


					 meu Deus, isto  a minha alma:
					qualquer coisa que flutua sobre este corpo efmero e 
					precrio, 
					como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e 
					inmera...



************


Herana


					Eu vim de infinitos caminhos, 
					e os meus sonhos choveram lcido pranto
					pelo cho.


					Quando  que frutifica, nos caminhos infinitos, 
					essa vida, que era to viva, to fecunda, 
					porque vinha de um corao?


					E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, 
					do pranto que caiu dos meus olhos passados, 
					que experincia, ou consolo, ou prmio alcanaro?




*************


Interldio


					As palavras esto muito ditas
					e o mundo muito pensado.
					Fico ao teu lado.


					No me digas que h futuro
					nem passado.
					Deixa o presente - claro muro
					sem coisas escritas.


					Deixa o presente. No fales, 
					No me expliques o presente, 
					pois  tudo demasiado.


					Em guas de eternamente, 
					o cometa dos meus males
					afunda, desarvorado.


					Fico ao teu lado.



****************






Encomenda


					Desejo uma fotografia
					como esta - o senhor v? - como esta:
					em que para sempre me ria
					como um vestido de eterna festa.


					Como tenho a testa sombria, 
					derrame luz na minha testa.
					Deixe esta ruga, que me empresta
					um certo ar de sabedoria.


					No meta fundos de floresta
					nem de arbitrria fantasia...
					No... Neste espao que ainda resta, 
					ponha uma cadeira vazia.



************


Suavssima


				Os galos cantam, no crepsculo dormente . . .
				No cu de outono, anda um langor final de pluma
				Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .

				Os galos cantam, no crepsculo dormente . . .
				Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma  . . .    

				Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
				Sem ter certeza de ningum . . . de coisa alguma . . .
				Tem-se a impresso de estar bem doente, muito doente,

				De um mal sem dor, que se no saiba nem resuma . . .
				E os galos cantam, no crepsculo dormente . . .

				Os galos cantam, no crepsculo dormente . . . 
				A alma das flores, suave e tcita, perfuma
				A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .

				Os galos cantam, no crepsculo dormente . . .
				To para l! . . .  No fim da tarde . . .  alm da bruma . . .

				E silenciosos, como algum que se acostuma
				A caminhar sobre penumbras, mansamente,
				Meus sonhos surgem, frgeis, leves como espuma . . .

				Pem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
				E os galos cantam, no crepsculo dormente . . .



**************


Marinha


					O barco  negro sobre o azul.

					Sobre o azul os peixes so negros.

					Desenham malhas negras as redes, sobre o azul.

					Sobre o azul, os peixes so negros.
					Negras so as vozes dos pescadores,
					atirando-se palavras no azul.

					 o ltimo azul do mar e do cu.

					A noite j vem, dos lados de Burma,
					toda negra,
					molhada de azul:

					- a noite que chega tambm do mar.



*************

Mquina Breve


					O pequeno vaga-lume
					com sua verde lanterna,
					que passava pela sombra
					inquietando a flor e a treva
					- meteoro da noite, humilde,
					dos horizontes da relva;
					o pequeno vaga-lume,
					queimada a sua lanterna,
					jaz carbonizado e triste 
					e qualquer brisa o carrega:
					mortalha de exguas franjas
					que foi seu corpo de festa.

					Parecia uma esmeralda
					e  um ponto negro na pedra.
					Foi luz alada, pequena
					estrela em rpida seta.
					Quebrou-se a mquina breve 
					na precipitada queda.
					E o maior sbio do mundo
					sabe que no a conserta.

**************



De um Lado Cantava o Sol


					De um lado cantava o sol,
					do outro, suspirava a lua.
					No meio, brilhava a tua
					face de ouro, girassol!

					 montanha da saudade
					a que por acaso vim:
					outrora, foste um jardim,
					e s, agora, eternidade!
					De longe, recordo a cor
					da grande manh perdida.
					Morrem nos mares da vida
					todos os rios do amor?

					Ai! celebro-te em meu peito,
					em meu corao de sal,
					 flor sobrenatural,
					grande girassol perfeito!

					Acabou-se-me o jardim!
					S me resta, do passado,
					este relgio dourado
					que ainda esperava por mim . . .



***************


Cronista Enamorado do Sagim


			O sagim  um animalzinho assaz bonito:
			 mesmo o mais bonito de todos, pela selva;
			anda nas rvores, esconde-se, espia, foge depressa
			e h deles, na terra viosa, nmero infinito.

			Se qualquer rei da Europa o visse, gostaria 
			de possu-lo como um brinquedo, vindo de longe, e raro.
			Mas  o sagim animalzinho to delicado
			que a uma viagem to longa no resistiria.

			A cara do sagim  como a de um leozinho,
			e pode-se conseguir que ele pouse no nosso ombro.
			O sagim mais bonito de todos  o sagim louro,
			que tem uma expresso de inteligncia e carinho.

			Ele pode descer a comer  nossa mo! Graciosa
			 a sua maneira de olhar. Gracioso  o movimento do seu corpo inteiro,
			to leve e breve! Mas os melhores, s no Rio de Janeiro
			se encontram: se encontram apenas nesta cidade, a mui formosa.



***********


Romance II ou do Ouro Incansvel


					Mil bateias vo rodando 
					sobre crregos escuros; 
					a terra vai sendo aberta
					por interminveis sulcos;
					infinitas galerias
					penetram morros profundos.

					De seu calmo esconderijo,
					o ouro vem, dcil e ingnuo;
					torna-se p, folha, barra,
					prestgio, poder, engenho . . .
					 to claro! - e turva tudo:
					honra, amor e pensamento.

					Borda flores nos vestidos, 
					sobe a opulentos altares, 
					traa palcios e pontes,
					eleva os homens audazes,
					e acende paixes que alastram 
					sinistras rivalidades.

					Pelos crregos, definham
					negros a rodar bateias.
					Morre-se de febre e fome
					sobre a riqueza da terra:
					uns querem metais luzentes,
					outros, as redradas pedras.

					Ladres e contrabandistas 
					esto cercando os caminhos;
					cada famlia disputa
					privilgios mais antigos;
					os impostos vo crescendo 
					e as cadeias vo subindo.

					Por dio, cobia, inveja,
					vai sendo o inferno traado.
					Os reis querem seus tributos,
					- mas no se encontram vassalos.
					Mil bateias vo rodando,
					mil bateias sem cansao.

					Mil galerias desabam;
					mil homens ficam sepultos;
					mil intrigas, mil enredos
					prendem culpados e justos;
					j ningum dorme tranqilo,
					que a noite  um mundo de sustos.

					Descem fantasmas dos morros,
					vm almas dos cemitrios:
					todos pedem ouro e prata, 
					e estendem punhos severos,
					mas vo sendo fabricadas
					muitas algemas de ferro.



**************


Romance XXI ou das Idias


					A vastido desses campos.
					A alta muralha das serras.
					As lavras inchadas de ouro.
					Os diamantes entre as pedras.
					Negros, ndios e mulatos.
					Almocrafes e gamelas.

					Os rios todos virados.
					Toda revirada, a terra.
					Capites, governadores,
					padres intendentes, poetas.
					Carros, liteiras douradas,
					cavalos de crina aberta.
					A gua a transbordar das fontes.
					Altares cheios de velas.
					Cavalhadas. Luminrias.
					Sinos, procisses, promessas.
					Anjos e santos nascendo 
					em mos de gangrena e lepra.
					Finas msicas broslando 
					as alfaias das capelas.
					Todos os sonhos barrocos
					deslizando pelas pedras.
					Ptios de seixos. Escadas.
					Boticas. Pontes. Conversas.
					Gente que chega e que passa.
					E as idias.

					Amplas casas. Longos muros.
					Vida de sombras inquietas.
					Pelos cantos da alcovas,
					histerias de donzelas.
					Lamparinas, oratrios,
					blsamos, plulas, rezas.
					Orgulhosos sobrenomes.
					Intrincada parentela.
					No batuque das mulatas,
					a prospia degenera:
					pelas portas dos fidalgos, 
					na l das noites secretas,
					meninos recm-nascidos
					como mendigos esperam.
					Bastardias. Desavenas.
					Emboscadas pela treva.
					Sesmarias, salteadores.
					Emaranhadas invejas.
					O clero. A nobreza. O povo.
					E as idias.

					E as moblias de cabina.
					E as cortinas amarelas.
					Dom Jos. Dona Maria.
					Fogos. Mascaradas. Festas.
					Nascimentos. Batizados.
					Palavras que se interpretam
					nos discursos, nas sades . . .
					Visitas. Sermes de exquias.
					Os estudantes que partem.
					Os doutores que regressam.
					(Em redor das grandes luzes,
					h sempre sombras perversas.
					Sinistros corvos espreitam
					pelas douradas janelas.)
					E h mocidade! E h prestgio.
					E as idias.

					As esposas preguiosas
					na rede embalando as sestas.
					Negras de peitos robustos
					que os claros meninos cevam.
					Arapongas, papagaios, 
					passarinhos da floresta.
					Essa lassido do tempo
					entre imbabas, quaresmas,
					cana, milho, bananeiras
					e a brisa que o riacho encrespa.
					Os rumores familiares
					que a lenta vida atravessam:
					elefantase; partos;
					sarna; torceduras; quedas;
					sezes; picadas de cobras;
					sarampos e erisipelas . . .
					Candombeiros. Feiticeiros.
					Ungentos. Emplastos. Ervas.
					Senzalas. Tronco. Chibata.
					Congos. Angolas. Benguelas.
					 imenso tumulto humano!
					E as idias.

					Banquetes. Gamo. Notcias.
					Livros. Gazetas. Querelas.
					Alvars. Decretos. Cartas.
					A Europa a ferver em guerras.
										Portugal todo de luto:
					triste Rainha o governa!
					Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!
					E sugestes indiscretas:
					To longe o trono se encontra!
					Quem no Brasil o tivera!
					Ah, se Dom Jos II
					pe a coroa na testa!
					Uns poucos de americanos,
					por umas praias desertas,
					j libertaram seu povo
					da prepotente Inglaterra!
					Washington. Jefferson. Franklin.
					(Palpita a noite, repleta
					de fantasmas, de pressgios . . .)
					E as idias.

					Doces invenes da Arcdia!
					Delicada primavera:
					pastoras, sonetos, liras,
					- entre as ameaas austeras
					de mais impostos e taxas
					que uns protelam e outros negam.
					Casamentos impossveis.
					Calnias. Stiras. Essa
					paixo da mediocridade
					que na sombra se exaspera.
					E os versos de asas douradas,
					que amor trazem e amor levam . . .
					Anarda. Nise. Marlia . . .
					As verdades e as quimeras.
					Outras leis, outras pessoas.
					Novo mundo que comea.
					Nova raa. Outro destino.
					Planos de melhores eras.
					E os inimigos atentos,
					que, de olhos sinistros, velam.
					E os aleives. E as denncias.
					E as idias.



**********
Coliseu


				Cem mil pupilas houve:
				- cem mil pupilas fitas na arena.
				Os olhos do Imperador, dos patrcios,
				dos soldados, da plebe.

				Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

				E os olhos da fera acossada,
				do lado oposto.
				Os olhos que ainda brilham fulvos,
				agora, na eternidade igual de todos.

				Cem mil pupilas:
				- ilustres, insensatas, ferozes, melanclicas,
				vagas, severas, lnguidas . . .
				Cem mil pupilas vem-se, na poeira da pedra deserta.

				Entre corredores e escadas,
				o cavo abismo do mido subsolo
				exala os soturnos prazeres da antiguidade:

				Um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
				-  duras vozes romanas! -
				um quente sangue vem golfando,
				-  negro sangue das feras!
				um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.
				-  surdo nome trmulo da morte!

				(No cairo jamais estas paredes,
				pregadas com este sangue e este rugido,
				a garra tensa, a goela arqueada em vcuo,
				as cordas do humano pasmo sobre o ltimo estertor . . .)

				Cem mil pupilas ficam aqui,
				pregadas nas pedras do tempo,
				manchadas de fogo e morte,
				no fim do dia trgico,
				depois daquela vida e acesa coincidncia
				quando convergiram nesta arena de angstia,
				que hoje  p e silncio, 
				esboroada solido.

				(As pregas dos vestidos deslizaram, frgeis.
				E os sorrisos perderam-se, fteis.
				Sobre o enorme espetculo, que foi o aroma dos cosmticos?)



*************

Presena em Pompia


				Esta conta no pagars:
				- ficar sob uma cinza que no sabes.

				Sob a cinza que ainda no sabes
				ficar teu filho por nascer
				e tambm os meninos que j sabiam desenhar nos muros.

				Ficaro os figos que ontem puseste na cesta.
				Ficaro as pinturas da tua sala
				e as plantas do teu jardim, de esttuas felizes,
				sob a cinza que no sabes.

				Os gladiadores anunciados no lutaro
				e amanh no vers, prximo s termas,
				a mulher que desejavas.

				Tu ficars com a chave da tua porta na mo;
				tu, com o rosto da amada no peito;
				amo e servo se uniro, no mesmo grito;
				os ces se debatero com mordaas de lava;
				a mo no poder encontrar a parede;
				os olhos no podero ver a rua.

				As cinzas que no sabes voaro sobre Apolo e sis.
				 uma noite ardente, a que se prepara,
				enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'gua:
				- a luz do sol que afaga pela ltima vez as roseiras verdes.



*******************

O Mosquito Escreve


					O Mosquito pernilongo
					trana as pernas, faz um M,
					depois, treme, treme, treme,
					faz um O bastante oblongo,
					faz um S.

					O mosquito sobe e desce.
					Com artes que ningum v,
					faz um Q,
					faz um U e faz um I.

					Esse mosquito
					esquisito
					cruza as patas, faz um T.

					E a, se arredonda e faz outro O,
					mais bonito.

					Oh!
					j no  analfabeto,
					esse inseto,
					pois sabe escrever o seu nome.

					Mas depois vai procurar
					algum que possa picar,
					pois escrever cansa,
					no , criana?

					E ele est com muita fome.


(Ceclia Meileles in "Ou isto ou aquilo")


***********************

O canteiro est molhado



						O canteiro est molhado.  

						Trarei flores do canteiro,

						Para cobrir o teu sono.

						Dorme, dorme, a chuva desce, 

						Molha as flores do canteiro.

						Noite molhada de chuva,

						Sem vento, nem ventania,

						Noite de mar e lembranas..."


*****************


CANTIGA 
BEM-TE-VI que ests cantando 
nos ramos da madrugada,
 por muito que tenhas visto,
 juro que no viste nada. 
No viste as ondas que vinham
 to desmanchadas na areia, 
quase vida, quase morte, 
quase corpo de sereia... 
E as nuvens que vo andando 
com marcha e atitude de homem,
 com a mesma atitude e marcha 
tanto chegam como somem.
 No viste as letras, que apostam 
formar idias com o vento... 
E as mos da noite quebrando 
os talos do pensamento. 
Passarinho tolo, tolo, 
de olhinhos arregalados... 
Bemtevi, que nunca viste 
como os meus olhos fechados... 

*************



O RESSUSCITANTE 
A Ester de Cceres 
Meus ps, minhas mos
 meu rosto, meu flanco,
 --- fogo de papoulas ! 
E hoje, lrio branco !
 Pela minha boca, 
por minhas olheiras,
 --- arroios partidos ! 
E hoje, albas inteiras ! 
Eu era o guardado de sinistras covas ! 
E hoje visto nuvens cndidas e novas ! 
Vi apodrecendo, com dor, sem lamento, 
meu corpo, meu sonho e meu pensamento ! 
E hoje, sou levado por entre as cadas coisas,
 --- transparente !
 (Aroma sem nardo!) 
Fuga sem violncia!)
 E de cada lado choram doloridas mos de antiga gente. 

*************

INSCRIO NA AREIA 
O meu amor no tem importncia nenhuma.
 No tem o peso nem de uma rosa de espuma !
 Desfolha-se por quem ?
 Para quem se perfuma ? 
O meu amor no tem importncia nenhuma. 

**********

PERGUNTA 
Estes meus tristes pensamentos 
vieram de estrelas desfolhadas
 pela boca brusca dos ventos ?
 Nasceram das encruzilhadas, 
onde os espritos defuntos
 pem no presente horas passadas ? 
Originaram-se de assuntos
 pelo raciocnio dispersos,
 e depois na saudade juntos ?
 Subiram de mundos submersos 
em mares, tmulos ou almas,
 em msica, em mrmore, em versos ? 
Cairiam das noites calmas, 
dos caminhos dos luares lisos, 
em que o sono abre mansas palmas ?
 Provm de fatos indecisos, 
acontecidos entre brumas, 
na era de extintos parasos ? 
Ou de algum cenrio de espumas, 
onde as almas deslizam frias, 
sem aspiraes mais nenhumas ?
 Ou de ardentes e inteis dias, 
com figuras alucinadas por desejos e covardias ?
... Foram as esttuas paradas em roda da gua do jardim... ? 
Foram as luzes apagadas ? 
Ou sero feitos s de mim,
 estes meus tristes pensamentos 
que biam como peixes lentos
 num rio de tdio sem fim ? 

*************

CANO EXCNTRICA 
Ando  procura de espao
 para o desenho da vida.
 Em nmeros me embarao
 e perco sempre a medida. 
Se penso encontrar a sada, 
em vez de abrir um compasso,
 projeto-me num abrao
 e gero uma despedida.
 Se volto sobre o meu passo
 j distncia perdida.
Meu corao, coisa de ao,
 comea a achar um cansao 
esta procura de espao
 para o desenho da vida.
 J por exausta e descrida 
no me animo a um breve trao:
 --- saudosa do que no fao, 
-- do que fao, arrependida. 

****************


CANO QUASE INQUIETA 
De um lado, a eterna estrela,
 E do outro a vaga incerta, 
meu p danando pela extremidade da espuma,
 e meu cabelo por uma
 plancie de luz deserta.
 Sempre assim: 
de um lado, estandartes do vento... 
--- do outro, sepulcros fechados.
 E eu me partindo, dentro de mim, 
para estar no mesmo momento
 de ambos os lados. 
Se existe a tua Figura, 
se s o Sentido do Mundo, 
deixo-me, fujo por ti, 
nunca mais quero ser minha ! 
(Mas, neste espelho, no fundo
 desta fria luz marinha,
 como dois baos peixes, 
nadam meus olhos  minha procura ... 
Ando contigo --- e sozinha. 
Vivo longe --- e acham-me aqui ...) 
Fazedor da minha vida, 
no me deixes !
 Entende a minha cano ! 
Tem pena do meu murmrio
 rene-me em tua mo !
Que eu sou gota de mercrio
 dividida 
desmanchada pelo cho ... 

*****************



LUA ADVERSA 
Tenho fases, como a lua 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdio da minha vida !
 Perdio da vida minha !
 Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vo e que vm,
 no secreto calendrio
 que um astrlogo arbitrrio
 inventou para meu uso. 
E roda a melancolia 
seu interminvel fuso ! 
No me encontro com ningum 
(tenho fases, como a lua ...) 
No dia de algum ser meu 
no  dia de eu ser sua ... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu ... 


***************


SUGESTO 
Sede assim --- qualquer coisa 
serena, isenta, fiel.
 Flor que se cumpre, 
sem pergunta. 
Onda que se esfora, 
Por exerccio desinteressado. 
Lua que envolve igualmente
 os noivos abraados
 e os soldados j frios. 
Tambm como este ar da noite:
 sussurrante de silncios
 cheio de nascimentos e ptalas.
 Igual  pedra detida,
 sustentando seu demorado destino 
E  nuvem, leve e bela,
 vivendo de nunca chegar a ser.
  cigarra, queimando-se em msica 
ao camelo que mastiga sua longa solido, 
ao pssaro que procura o fim do mundo, 
ao boi que vai com inocncia para a morte.
 Sede assim qualquer coisa 
Serena, isenta, fiel.
 No como o resto dos homens. 

**************

CANTARO OS GALOS 
Cantaro os galos, quando morrermos,
 e uma brisa leve, de mos delicadas, 
tocar nas franjas, nas sdas 
morturias. 
E o sono da noite ir transpirando 
sobre as claras vidraas.
 E os grilos, ao longe, serraro silncios, 
talos de cristal, frios, longos ermos,
 e o enorme aroma das rvores.
 Ah, que doce lua ver nossa calma
 face ainda mais calma que o seu grande espelho de prata ! 
Que frescura espessa em nossos cabelos, 
livres como os campos pela madrugada !
 Na nvoa da aurora, 
a ltima estrela 
subir plida. 
Que grande sossego, sem falas humanas, 
sem o lbio dos rostos de lobo,
 sem dio, sem amor, sem nada ! 
Como escuros profetas perdidos,
 conversaro apenas os ces, pelas vrzeas.
 Fortes perguntas. Vastas pausas. 
Ns estaremos na morte 
com aquele suave contorno 
de uma concha dentro da gua. 

***************

O CAVALO MORTO 
Vi a nvoa da madrugada 
deslizar seus gestos de prata
 mover densidades de opala 
naquele prtico de sono.
 Na fronteira havia um cavalo morto. 
Gros de cristal rolavam pelo 
seu flanco ntido; e algum vento
 torcia-lhes as crinas, pequeno, 
leve arabesco, triste adorno, 
--- e movia a cauda ao cavalo morto.
 As estrelas ainda viviam 
e ainda no eram nascidas
 ah ! as flores daquele dia ... 
--- mas era um canteiro o seu corpo:
 um jardim de lrios, o cavalo morto.
 Muitos viajantes contemplaram
 a fluida msica, a orvalhada 
das grandes moscas de esmeralda 
chegando em rumoroso jorro.
 Adernava triste, o cavalo morto.
 E viam-se uns cavalos vivos, 
altos como esbeltos navios, 
galopando nos ares finos, 
com felizes perfis de sonho. 
Branco e verde via-se o cavalo morto,
 no campo enorme e sem recurso, 
--- e devagar girava o mundo 
entre as suas pestanas, turvo 
como em luas de espelho roxo.
 Dava sol nos dentes do cavalo morto.
 Mas todos tinham muita pressa,
 e no sentiram como a terra
 procurava, de lgua em lgua, 
o gil, o imenso, o etreo sopro
 que faltava quele arcabouo. 
To pesado, o peito do cavalo morto !



**************


TRAPEZISTA
 (JOGOS OLMPICOS) 
De que maneira chegaremos 
s brancas portas da Via-Lctea ? 
Ser com asas ou com remos ? 
Ser com os msculos com que saltas ? 
Leva-me agarrada aos teus ombros
como um cendal para agasalhar-te !
 Seremos pssaros ou anjos atravessando a sombra da tarde ! 
Deixaremos a terra juntos
 e justapostos como metades,
 sem o triste p dos defuntos, 
sem qualquer bruma que enlute os ares ! 
Sem nada de humanos assuntos: 
muito mais puros, muito mais graves ! 
****************

CANO DO DESERTO 
Pelo horizonte de areias,
 reclina-se a voz do canto. 
A moa diz, muito longe:
 "Eu sou a rosa do campo ..."
 O beduno pra e escuta,
 vestido de pensamento, sozinho,
 entre as margens de ouro
 do ar e do deserto imenso.
 "Eu sou a rosa do campo..."
 E olhando para as ovelhas 
sente o cho verde e macio
 e flores pelas areias. 
"Eu sou a rosa do campo..."
 Mas tudo o que ouve e est vendo
  poeira, apenas, que voa: 
o vento d voz ao vento ... 
***********
